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Her e o Design Transparente

Este fim de semana assisti (bem atrasado, eu sei), ao filme Her de Spike Jonze. Acompanho sem muito interesse a carreira do diretor e confesso que eu achava muito mais interessante o seu trabalho com vídeos de skate e clipes de bandas dos anos 90, do que seus trabalhos em filmes como “Quero ser John Malkovich” e “Onde Vivem os Monstros”. #mejulguem.

Mas, para a alegria dos cinéfilos de plantão, este texto tem muito mais a ver com User Experience (UX), do que com cinema.

Ouvi falar muito de Her. Joaquin Phoenix (Theodore) em um papel brilhante contracenando com a voz suave de Scarlett Johansson (Samantha), a atmosfera nostálgica-retro-futurística, os dilemas sobre solidão e felicidade em um mundo tecnológico, etc. Tudo isso é interessantíssimo e realizado de forma brilhante por Jonze, porém o trabalho que mais me impressionou foi o realismo proposto nas interações do elenco com os produtos e serviços tecnológicos do filme.

Na Los Angeles futurista de Her, quase todas as interfaces são acessadas via comandos de voz, desde o software que Theodore utiliza em seu trabalho, até seus vídeos-games, players de música e o sistema operacional OS1, interpretado por Scarlett.

As interações minimalistas tornam a tecnologia de Her extremamente sutil e intimista, ou como o próprio designer gráfico do filme Geoff McFetridge sugere em uma entrevista ao Gizmodo, "transparente".

Percebemos o "design transparente" de Her não apenas em interações com a voz, mas durante todo o momento o filme parece nos mostrar que o papel da tecnologia no mundo deve ser frictionless, quase invisível. O que deve ficar evidente é a nossa relação com o mundo, as pessoas e as coisas, não a tecnologia.

Silhuetas de grandes árvores são projetadas na parte interna dos elevadores, enquanto estes sobem e descem para evitar a monotonia. As luzes do apartamento de Theodore acendem suavemente quando ele chega em sua casa à noite, como se percebessem que após um dia estressante seria interessante uma recepção mais suave. A própria voz tremulante e reconfortante de Samantha torna mais humana a "Siri" de Spike Jonze.

Como o brilhante artigo da Wired pergunta "Em um mundo onde você consegue comprar Inteligencia Artificial em uma prateleira, como as outras tecnologias se comportarão?". A resposta no próprio artigo é que a tecnologia não pode se parecer com tecnologia. 

No decorrer das 2 horas do filme é vísivel que, assim como em Minority Report no inicio dos anos 2000, Her pode se tornar um norteador para as interações dos usuários com produtos tecnológicos nos próximos anos. Entretanto, ao contrário do filme de Tom Cruise, a tecnologia neste caso não é exibicionista. Não vemos carros voadores ou um futuro feito de neon como em Blade Runner. A tecnologia no filme de Jonze, desapareceu no cotidiano.

Talvez a grande pergunta para nossos futuros produtos e serviços digitais seja justamente esta. O seu produto/serviço é uma interface para o mundo ou uma interface para a própria tecnologia? A resposta para esta pergunta definirá se o seu consumidor passará a prestar atenção nas pessoas ou continuará dando atenção às notificações.

Por Bruno Duarte

Designer de Experiência na A2C

 

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