Menu Mobile

ARTIGOS

Empreendedorismo, inovação e crise

Podemos comemorar: a crise na qual o Brasil está mergulhado até o último fio dos cabelos pode ser uma das melhores coisas que já aconteceram em sua história recente.

Só em 2014, a indústria fechou 216 mil postos de trabalho, segundo a FIESP. Os impostos sobre a folha de pagamento cresceram 150%, a inflação acumulada está perigosamente acima da meta, o dólar está quase na altura da órbita terrestre, os níveis de corrupção ultrapassaram os limites do tragicômico e o governo parece tão acéfalo na sua capacidade de corrigir os problemas que ele mesmo criou que nem os mais otimistas dos cidadãos conseguem abrir um sorriso quando perguntados sobre o Brasil.

E o que se há de comemorar com um cenário tão dantesco como esse?

A reação natural a crises
Na vida, nem tudo pode (ou deve) ser visto com olhares funestos: a iniciativa privada brasileira, afinal, sempre sobreviveu e cresceu a despeito de governos que, historicamente, parecem se dedicar com afinco a atrapalhar qualquer tipo de ação empreendedora. Em outras palavras: empresários de todos os portes já desenvolveram uma espécie de couraça que os faz resistentes a pessimismos econômicos. Mais que resistentes: crises sempre foram encaradas como desafios a serem transpostos para que a mera sobrevivência fosse garantida.

Como se reage a crises agudas como a que estamos vivendo – principalmente quando o desemprego bate à porta, deixando a capacitação técnica sem aplicação prática no mercado tradicional? A resposta chega a ser óbvia: empreendendo!

E como se empreende em um país com juros ridiculamente altos, crédito tão escasso e problemas sociopoliticos tão revoltantes? Inovando, claro!

De alguma maneira, por mais mal que uma crise poderosa possa impor sobre as vidas das pessoas, esta deve deixar um legado de longo prazo importantíssimo: a força de um perfil de empreendedor que usa a inovação como principal ferramenta de sobrevivência mercadológica – algo que, no futuro, tem potencial para fazer as empresas brasileiras alçarem voos muito mais altos no cenário mundial.

O brasileiro é um empreendedor de sucesso?
Mas antes de olhar para o futuro, cabe se quebrar alguns paradigmas importantes. Em quase todos os círculos de empresários, as qualidades do empreendedor brasileiro são enaltecidas: palavras como criatividade e flexibilidade, por exemplo, são sempre associadas ao perfil que vive no imaginário popular. Mas imaginário, às vezes, é apenas isso: fruto da imaginação.

Sim: a vontade de empreender, no Brasil, é muito forte. Em uma pesquisa recente feita pela Endeavor, 76% dos entrevistados disseram ter vontade de abrir seus próprios negócios – um número muito maior, por exemplo, que nos Estados Unidos (51%) e União Europeia (37%).

Querer, no entanto, não é poder. De acordo com estudo feito pela Fundação Dom Cabral, 1 em cada 2 startups brasileiras fecha as portas antes dos quatro anos de vida. Pode haver vários motivos para isso – incluindo, provavelmente com algum destaque, o clima de cangaço no qual profissionais são empurrados no instante em que decidem abrir os seus negócios. Mas há mais motivos por trás de tantos casos de insucesso.

Somos inovadores?
Na mania quase genética que o brasileiro tem colocar a culpa exclusiva por seus próprios fracassos em terceiros – neste caso, o governo – acaba-se esquecendo de se fazer uma autoanálise muito mais útil. Afinal, nós realmente sabemos inovar nos produtos e serviços que lançamos ao mercado? Somos mesmo bons assim quando comparados a outros países?

Aparentemente, não: de acordo com o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), apenas 11% dos próprios empreendedores brasileiros consideram-se efetivamente inovadores.

Triste número que reflete uma situação de estagnação criativa fruto, ironicamente, de mais de uma década de crescimento econômico morno, porém contínuo. Afinal, se o país passou tanto tempo no mesmo ritmo independentemente de qualquer esforço que se fizesse, para quê se dar ao trabalho de fazer algum esforço a mais? Nos enterramos assim em uma mesmice tediosa, travada e, no fim, terrível para o próprio país.

É hora de acordar
Esse período que tanto beneficiou o comodismo empresarial, no entanto, acabou. Na nova realidade que temos adiante, enfrentamos a mesma infraestrutura paquidérmica de sempre – mas com menos dinheiro, mais competição, mais inflação e muita, muita incerteza.

Para sobreviver, a vontade de empreender agora precisará vir acrescida da noção de que não há como ter sucesso sem inovar – algo que os brasileiros parecem já entender. Uma análise de volume de buscas feitas no Google, por exemplo, mostra que há uma simbiose gritante entre pesquisas por “empreendedorismo” e “inovação”, como pode ser visto abaixo:

E o que isso nos diz?
Que, no longo (ou mesmo médio) prazo, o Brasil tende a parir empresas, produtos e serviços muito mais inovadores do que os que estamos acostumados. Para o mercado interno, isso significa que se estará plantando as bases de uma economia criativa muito mais sólida, com geração de empregos de primeira linha, e instaurando um tipo de competição mais pautada pela inteligência do que pelas regras básicas (e já um tanto quanto retrógradas) de oferta e demanda.

Externamente, isso significa a entrada com muito mais força do mercado brasileiro em áreas que vão além das commodities, possivelmente posicionando o país em um ringue mais valioso para as forças que realmente movem a engrenagem socioeconômica: os pequenos e médios empresários.

Claro: quando se fala de Brasil, é sempre importante deixar uma ressalva quanto às constantes tentativas do governo de sufocar o setor criativo com impostos, burocracias e barreiras as mais diversas.

No entanto, considerando que nada de cataclísmico ocorra ao ponto de transformar uma crise aguda em uma falência geral, nós efetivamente temos tudo para sair desse momento com uma nova mentalidade e uma força competitiva que jamais tivemos no passado.

Que seja essa uma razão para sofrermos menos com o presente e olharmos para o futuro com um pouco mais de otimismo.

 

Por Ricardo Almeida
Diretor de Planejamento da A2C

Publicado em 02/03/2015 no IDG Now

ARTIGOS RECENTES