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A influência dos celulares no nosso comportamento

A tecnologia tem a capacidade de potencializar diferentes disciplinas. Centenas de linhas de código em uma aplicação funcionam como catalisadores, expandindo o nosso poder computacional. Tomemos a Medicina como exemplo: é fácil desenhar uma imagem mental da sua evolução em relação à geração dos nossos pais e avós. Mesmo assim, parece que nos faltaram alguns puxões de orelha na infância: ignoramos os conselhos de criança e falamos cada vez mais com estranhos. Sem perceber, nossos dados e opiniões pessoais estão expostos publicamente nas redes sociais. O conteúdo que produzimos idealiza lugares bonitos e companhias desejadas: é como se cada opção “curtir” fosse uma dose dos melhores sentimentos (ou de animosidade).

Seja como for, existem pessoas dispostas a ouvirem e analisarem tudo que temos a dizer. A indústria da tecnologia nos oferece ferramentas mais conectadas e, em contraponto, transforma nossos hábitos em algoritmos. Um dos principais dispositivos está sempre no seu bolso. Na interpretação da publicação americana MIT Technology Review, nossos telefones celulares se tornaram objetos ultra confidentes. Eles são extensões de nós mesmos, próteses inteligentes, amigos confiáveis.

Como profissional de Design, acredito nas possibilidades e alternativas. No momento em que as regras do jogo se tornam transparentes, todas as partes envolvidas podem tirar proveito de bons serviços. Assim como em outras vertentes projetuais, desenvolver soluções para plataformas móveis flui melhor utilizando-se princípios. Apresentarei alguns na sequência.

O estudioso Jakob Nielsen exemplifica as diferenças de contexto. Ao pensarmos em interfaces para dispositivos tradicionais, os textos devem ser curtos; ao pensarmos em dispositivos móveis, eles devem ser ultracurtos. As diferenças não permeiam apenas escala, tamanho ou redimensionamento. Com a popularização das telas capacitivas, tivemos de repensar ponteiros, mouses e toques. Narrativa visual e fluidez se tornaram premissas.

Vale também destacar a influência da Apple e das suas metáforas visuais no Design de interfaces. Parecia haver um zeitgeist entre os designers, uma linha gráfica muito semelhante em que suas peças resultavam, era latente, porém, a chegada de um contraste. A linguagem Metro, criada para o Zune da Microsoft, é um dos principais expoentes. Diferentemente do alto nível de detalhe das interfaces da Apple, a linha conceitual da Microsoft defende a valorização do conteúdo por si próprio. Os ícones dão lugar à tipografia, que constitui o principal elemento de interação do sistema. No fim das contas, a Apple acabou adotando o estilo flat de interface.

Mesmo com a evolução das versões mais recentes do Windows Phone, o iPhone ainda é campeão nas análises de experiência por um aspecto simples. Seu conjunto de micro interações é mais amplo e integrado. Este termo representa os pequenos detalhes presentes na tecnologia que influenciam nosso comportamento do dia a dia.

Uma das características que se espera de um designer é conseguir decifrar os traços que tem feito os usuários mudarem esse comportamento. Com a experiência do dia a dia acabamos desenvolvendo uma espécie de sensibilidade às ações das pessoas. É necessário observar como a cognição, o reconhecimento e a interação se desdobram in loco, em contextos reais de uso. Faça o teste: assim que estiver em um ambiente público, observe ao seu redor. Quantas pessoas estão com seus smartphones? Que tipo de interação elas desenvolvem?

Para exemplificar, considere o uso do aplicativo de mensagens Whatsapp como walkie-talkie. Quais motivos levaram os usuários a preferirem trechos de áudio? Uma das hipóteses é que a experiência dos teclados móveis não atende às expectativas de quem usa. Há estudiosos da área de linguística que comentam o surgimento de uma nova habilidade comunicacional, o texting. Além da leitura, escrita, audição e fala, estamos nos comunicando com concatenações, abreviações e ilustrações selecionadas pelos dedos. Observe o movimento que você realiza enquanto digita no seu celular e como ele difere do ato de escrever com caneta e papel. 

Pode parecer saudosismo, mas observar as interações tradicionais é essencial para o repertório do designer de interação. A inspiração que o olho no olho traz contribui muito para o desenvolvimento de projetos. É importante ver a tecnologia como um meio, e não como o fim.

Já que citei o termo inspiração, destaco que as reflexões que compartilho neste artigo estão ligadas ao trabalho mais recente de Damon Albarn, um músico popular britânico. Colaborador em massa, Albarn encabeça as bandas Blur e Gorillaz além de seus discos próprios. Sua relação com tecnologia é em prol da criatividade. Para o cantor, a única ferramenta que potencializa sua capacidade é o iPad, pela liberdade de movimentos (afinal, tablets aceitam todos os dedos de sua mão). A faixa título de seu álbum mais recente cita que nos tornamos “robôs do dia a dia, usando nossos celulares a caminho de casa, como pedras estáticas e solitárias”. Será esse o futuro que queremos? O comportamento que queremos moldar?

Cabe a nós, designers, projetistas, usuários e consumidores, olharmos para a tecnologia sobre um prisma crítico. É nossa missão guardar os aspectos mais subjetivos, únicos e humanos que podemos vivenciar. A escolha por clicar ou rejeitar os botões de ‘li e aceito’ ainda é nossa.

Por João Menezes
Designer de Experiência na A2C, especialista em Design centrado no usuário 

 

 

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